sábado, 14 de abril de 2012

Catadores discutem o futuro às vésperas do fim de lixão

Das três mil pessoas que costumavam recolher diariamente produtos recicláveis no aterro de Gramacho, restam hoje apenas 500.


Os catadores do Aterro Sanitário de Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, não ficaram satisfeitos com a decisão da prefeitura do Rio de antecipar o fechamento do lixão para o dia 23. A data original era 5 de junho. Para o presidente da Associação dos Catadores do Aterro de Gramacho, Sebastião Santos, a decisão foi equivocada porque ainda não foram implementadas as medidas para minimizar os impactos sociais decorrentes do fechamento do lixão.

Sebastião Santos disse que o fundo de R$ 1,4 milhão, criado para garantir renda mínima aos 1,8 mil catadores de Gramacho e financiar políticas de inclusão, ainda não saiu do papel. "Não existe um centavo desse fundo depositado, tampouco há uma conta aberta". O fundo deve garantir aos catadores de Gramacho uma indenização pelo tempo que trabalharam no local e recursos para capacitação em reciclagem. Os catadores também serão incorporados ao Programa Bolsa Família.

Futuro - O clima entre os catadores é de apreensão. Muitos pensam em mudar de profissão com o dinheiro do fundo criado para indenizar quem ainda vive ou se dedicou à atividade nos últimos anos. Quem ficar terá que se adaptar aos novos tempos, longe dos montes de lixo. Líderes dos catadores estão se unindo em cooperativas para recolher recicláveis previamente separados em grandes empresas da Baixada. A ideia é começar o projeto por Duque de Caxias, mas a proposta esbarra na falta de tradição da cidade em coleta seletiva.

Os catadores já foram mais de três mil, que se revezavam em busca de latinhas, plásticos, papéis e outros materiais recicláveis em meio a até dez mil toneladas de lixo descartadas diariamente. Hoje, entram 500 por dia, e muitos falam em deixar a profissão de vez.

"Se não fosse pelos catadores, Gramacho teria fechado há muito tempo, por não ter mais onde despejar lixo. A coleta seletiva em Duque de Caxias deveria ter começado antes de o aterro fechar. Por isso, prefiro receber a indenização e abrir um negócio próprio", disse Wanderley Pereira da Costa, de 45 anos.

Os catadores negociam com a Novo Gramacho Energia Ambiental, que explora o gás metano captado no aterro, a antecipação do pagamento - em vez de o total de mais de R$20 milhões ser liberado em 14 anos, seis parcelas seriam quitadas ainda em 2012. As indenizações estão previstas no contrato de concessão do biogás assinado entre a Comlurb e a empresa em 2008.

O dinheiro das indenizações será investido nas cooperativas ou para garantir o sustento de quem abandonar a profissão. Mas não há prazos para os recursos serem liberados. Há problemas legais na montagem das cooperativas. Os catadores divergem até sobre o número de pessoas que teriam direito ao dinheiro. Um cadastro organizado pela União listou 1.914 beneficiários. Mas uma comissão formada por 11 catadores vai rever essa relação. "Muita gente que se cadastrou apenas mora no bairro. Na verdade, cerca de 1.400 pessoas realmente têm direito ao dinheiro", estima uma das líderes dos catadores, Roberta Alves de Oliveira, a Docinho.

No contrato com a Comlurb, parte dos recursos da venda de créditos de carbono com o reaproveitamento ou a queima do gás metano deve ser destinada ainda a obras de infraestrutura em Gramacho. Isso inclui o projeto de transformar o antigo aterro num parque ecológico.

A Novo Gramacho ainda negocia com o Banco do Brasil um empréstimo a juros baixos para pagamento das indenizações. Quando os recursos forem liberados, o pagamento ainda dependerá de os catadores superarem problemas burocráticos. Em meio ao impasse e tentando se antecipar a protestos contra o fechamento do aterro já prometidos por catadores, o prefeito Eduardo Paes decidiu ontem intervir no processo.

"Durante seis meses, a prefeitura vai pagar uma bolsa de R$500 para aqueles que as associações indicarem. Acreditamos que será um tempo suficiente para os catadores se organizarem", disse o secretário municipal de Conservação, Carlos Roberto Osório.

Desativado há um ano, com a redução progressiva da entrada de caminhões, o aterro recebe hoje, do Rio e de municípios vizinhos, apenas 25% (2,5 mil toneladas) dos resíduos do passado. A queda na quantidade de lixo provocou reflexos no bolso dos catadores. A garimpagem no lixo já rendeu até R$3 mil mensais para cada catador. Hoje, eles não conseguem mais de R$800 pelos materiais recicláveis.

De acordo com a Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), com o fechamento do aterro sanitário, a nova Central de Tratamento de Resíduos (CTR), em Seropédica (também na Baixada Fluminense), que começou a funcionar no dia 20 de abril, vai receber gradativamente os resíduos que eram destinados ao lixão.
(JC com informações da Agência Brasil e Agência Globo)

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