04/02/2009 - Estudantes, filósofos, geógrafos, assistentes sociais, economistas, comunicadores, educadores, sociólogos e engenheiros estiveram entre os participantes das duas oficinas organizadas pela RTS no Fórum Social Mundial (FSM), em Belém (PA). O objetivo foi debater o papel das Tecnologias Sociais (TSs) para a construção de um novo modelo de desenvolvimento, bem como aproximar os participantes das ações de difusão e reaplicação de TSs no âmbito da Rede.
Segundo definição pactuada no âmbito da RTS, Tecnologias Sociais são “produtos, técnicas e/ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que representem efetivas soluções de transformação social”. Durante as oficinas, o conceito foi discutido à luz do papel das universidades e do Estado diante do atual modelo de produção técnico-científica e da necessidade de valorização dos conhecimentos tradicionais e comunitários como instrumentos efetivos de geração de conhecimento e inovação.
“As universidades ainda têm estruturas muito rígidas e é preciso aproximar os universitários destas experiências comunitárias. O conhecimento é um direito e precisamos fazer esta afirmação aqui, muito claramente, tendo como referência a relação das ciências com a própria democracia”, defendeu o filósofo argentino Oscar Vallejos, que ensina Ciência, Tecnologia e Sociedade na universidade de Santa Fé (Argentina). “A Tecnologia Social não é um conceito bem entendido, sobretudo na Argentina, e acredito que também possa ser um caminho para nosso país”, acrescentou.
Desenvolvida pelo Pólo de Proteção da Biodiversidade e Uso Sustentável dos Recursos Naturais (Poloprobio), a experiência do projeto Encauchados Vegetais da Amazônia foi apresentada durante a oficina como exemplo de como os saberes populares e científicos podem caminhar juntos em favor da inclusão social. A tecnologia, que recupera técnicas indígenas de fabricação da borracha, baseia-se na produção de um composto com a utilização do látex extraído pelos seringueiros com fibras vegetais como a embaúba e o algodoeiro. O látex é aquecido de forma controlada, com a adição de substâncias naturais coagulantes. Para estabilizar o látex, é usada uma mistura de água com cinzas, recolhidas de fornos, fogão e roçados. O resultado desse processo é o chamado "encauchado", atualmente produzido em diversas comunidades da Amazônia para complementar a renda de assentados, caboclos e ribeirinhos. “Sem o conhecimento deles, jamais teríamos tido sucesso”, lembra o professor e coordenador do projeto, Francisco Samonek.
“O problema não é só a apropriação da tecnologia. Quem a produz e para quem ela é feita? São questões que temos de nos fazer”, defendeu Lais Fraga, da incubadora de empreendimentos populares da Unicamp. Ela também deu exemplos de como é possível estreitar o diálogo entre a realidade comunitária e a pesquisa acadêmica. Uma parceria entre o CNPq, a incubadora e um arquiteto permitiu a criação de uma mesa adequada ao processo de triagem de material reciclável. A partir das demandas colocadas pelos próprios catadores, foi desenvolvida uma mesa ajustável em relação a altura, inclinação, mobilidade e tipo de resíduo. “Pedimos o material para construir a mesa, não uma mesa pronta. Isso faz toda a diferença quando você considera as necessidades dos próprios empreendimentos”, explicou. Hoje há oito mesas do tipo para cada empreendimento de reciclagem atendido pela incubadora.
O que deve estar em jogo em qualquer caso, segundo o educador social Luiz Carlos Favaron, é a apropriação de um modelo tecnológico que não sirva apenas aos interesses do mercado, o que muitas vezes significa excluir do processo de desenvolvimento técnico e científico todos aqueles que não conseguem se enquadrar como “consumidores de inovação”. “Entendo a Tecnologia Social como aquela em favor da coletividade, em nome da paz, do bem estar coletivo e do desenvolvimento humano. É outra tecnologia que não esta que está aí. Até que ponto queremos ir na raiz das desigualdades ou ficar na superficialidade das coisas?”, disse.
Como Favaron, a pedagoga Euzeni Nunes ficou sabendo da oficina da RTS por meio da programação geral do FSM. Ela integra o Núcleo de Tecnologia da Informação da Universidade Federal do Pará: “Já conhecia o tema, mas não a Rede. Vai ser muito bom ver como diferentes pessoas e instituições trabalham com a questão”, disse.
RTS
Fundada em 2005, a Rede de Tecnologia Social (RTS) viu saltar de 30 para 640 o número de instituições associadas. Com vistas a fazer valer esta capilaridade e criar efeitos demonstrativos capazes de levar à adoção de Tecnologias Sociais como políticas públicas, a RTS aposta este ano no fortalecimento da articulação em rede e na convergência institucional para garantir escala à reaplicação de TSs geradoras de trabalho e renda.
Segundo a secretária executiva da RTS, Larissa Barros, um primeiro passo para assegurar o êxito desta multiplicação é entender, desde o início, a diferença entre os conceitos de reaplicação e replicação. “A Tecnologia Social não é uma cópia. No processo de reaplicação ela precisa ser recriada e ajustada pelas comunidades”, explica.
Durante a oficina, a importância de respeitar as peculiaridades e potencialdiades locais foi realçada por diversos participantes. “Já participei de projetos de TSs que não deram certo porque muitas vezes a solução já chegava pronta”, lembra Cláudio Costa de Araújo, que trabalha com a integração de sistemas produtivos de pequena escala na Amazônia.
De acordo com Larissa, o desafio agora é consolidar a dinâmica de rede e envolver o maior número possível de instituições nos debates sobre os rumos da própria RTS. “Temos, na Rede, universidade, movimentos sociais, governos, empresas. Essa cultura da aproximação não é simples e demanda muito diálogo”, avalia. Entre as ações prioritárias para esta articulação, avisa, está a organização de momentos presenciais em que representantes das instituições associadas à RTS possam se conhecer e trocar mais diretamente conhecimentos e experiências.
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